11 outubro 2017

"As Aventuras de Sherlock Holmes" de Arthur Conan Doyle - 27 de Outubro às 21h00


Então vamos lá testar os nossos dotes de detectives e o nível da nossa argúcia.

Em apreciação:

A Aventura dos Seis Napoleões
A Aventura da Escola da Abadessa
A Aventura da Luneta de Ouro
A Aventura de Abbey Grange
A Aventura dos Bonecos Dançantes
A Aventura da Casa Vazia
A Aventura da Ciclista Solitária

Todos incluídos no livrinho acima...

25 setembro 2017

JOHN RUSKIN EM "ADOECER"

John Ruskin, o influente crítico inglês, pintado por Millais junto das quedas de água dos Trossachs. Na verdade, o retrato só seria apurado em Londres, meses mais tarde. «Foi o trabalho mais odioso que fiz», confessou John Millais. Era no ano de 1854, o da anulação do casamento do crítico com a sua esposa Euphemie. Casamento não consumado. Entre a senhora Ruskin e Millais corria «uma linguagem eloquente», todos os sabiam. A inteligência e a carne têm destas coisas, não tentemos explicá-las.
 
 

22 setembro 2017

WILL YOU WALK INTO MY PARLOUR?

Uma das muitas referências literárias contidas em Adoecer, de Hélia Correia, é a do poema The Spider and the Fly, de Mary Howitt (1799-1888), sobre uma aranha que convida uma ingénua mosca a visitar a sua teia: «Will you walk into my parlour?» Exemplo do método usado pelos sedutores para atingirem os seus objectivos, a referência surge na parte da narrativa em que Lizzie permanecia “aprisionada” na teia de Chatham Place e Gabriel, por imperativos da  criação artística, partira para casa de William Bell Scott em Newcastle. «A aranha do poema é masculina», diz-se no texto de Hélia e vê-se na imagem.

20 setembro 2017

RED HOUSE, Bexleyheath, England



Significativa para a história da Arquitetura e do Design, a "Red House", situada em Bexleyheath, foi projetada em co-autoria pelo arquiteto Philip Webb e William Morris, fundador do movimento "Arts and Crafts". Construída em 1860, surgiu do desejo de Morris de viver numa casa rural, fora do ambiente insalubre de Londres, e corresponde às ideias que defendia, inspiradas num certo medievalismo, mas sustentando um retorno ao essencial, aos materiais primitivos e ao artesanato, como reação à prevista uniformização industrial, mas sobretudo ao gosto dominante, eivado de ecletismo e falho de caráter.  Morris, assim como Ruskin (um dos muitos personagens de "Adoecer", de Hélia Correia) e seus seguidores, são considerados pioneiros do Movimento Moderno (Nicolaus Pevsner). Também aqui pontua o paradoxo, tema que não cabe agora tratar.
Alguns artistas pre-rafaelitas,  protagonistas de "Adoecer" , nomeadamente Dante Gabriel Rossetti (e Edward Burne-Jones) colaboraram na decoração da casa de William Morris, subsistindo ainda pinturas murais deste último.
Atualmente, a casa está transformada em museu e centro de atividades:
https://www.nationaltrust.org.uk/red-house

12 setembro 2017

CRANBOURN ALLEY, 1850

 
O primeiro trabalho de Lizzie Siddal como modelo foi para o quadro de Walter Deverell inspirado em Twelfth Night, de W. Shakespeare, cena IV do segundo acto. A figura de Lizzie (Viola) surge à esquerda, disfarçada de rapaz, não passando despercebido o ruivo dos cabelos. No livro Adoecer, de Hélia Correia, é narrado o processo de recrutamento da jovem aprendiza de modista de chapéus, futura musa da Irmandade Pré-Rafaelita.
 
 

08 setembro 2017

“Adoecer” de Hélia Correia – 29 de Setembro às 21h00



Sinopse

“Havia nela como que uma falha que provinha talvez da exaustão e da deficiência alimentar, dando-lhe um ar furtivo, de gazela, que fez cair as apresentações. 

Lizzie passou para detrás da porta abandonada que servia de biombo e regressou vestida de rapaz. Apanhara o cabelo sobre a nuca. Mostrava as pernas e isso produzia um curioso efeito assexuado. Gabriel adiantou-se e começou a ocupar-se da figura que faltava, não nos papéis de esboço, mas na tela. As personagens masculinas já se achavam muito avançadas. Ele posara para bobo. Os pré-rafaelitas provocavam situações de entreajuda em que existia, a par de exibição, sinceridade.
Deverell e Millais arrefeciam, de pé, imóveis e a perder entusiasmo. Viam em Lizzie a rapariga magra e de feições irregulares que até então não tinham visto. A narrativa de Walter, que avassalara o próprio narrador, deixava de exercer influência e a temperatura dos seus corpos ressentia-se. Esfregavam os braços, percebendo toda a impiedade do Inverno. Observavam Rossetti e Miss Sid que estavam sós, naquilo que talvez fosse o encontro do pintor com o modelo. Porém sentiam desconforto, como se presenciassem uma cena íntima. 
Lizzie, que mantivera a posição sem vacilar nos dias anteriores, vergava as costas, inclinada para o chão. Era um abatimento poderoso sob o qual circulava alguma glória. John Everett Millais compreendeu a origem do fascínio de Miss Sid. Tinha um corpo selado na tragédia, um apetite sacrificial. "Hei-de pintar esta mulher", pensou. Imaginava-a num cenário de narcisos. Não sabia que estava a vê-la morta.”


16 agosto 2017

O MAR DOS AÇORES

Ilha de S. Miguel, fotografia de Dezembro de 2015
 
O MEU MUNDO NÃO É DESTE REINO, capítulo 3, exemplo de uma das diversas alterações introduzidas pelo autor na edição de 2015:
«Cadete garantia, por um sofisma da sua mente complicada, que a cor do mar dos Açores era o branco. Porém, as crianças sustentavam que não existia nenhuma cor para definir a eternidade da água. A sua contínua convulsão, ao ser remexida pelos ventos invernosos da Ilha, com o branco da espuma a sobrepor-se à cinza do Inverno, fazia com que o mar se assemelhasse a uma contínua e laboriosa sucessão de ninhos de répteis em movimento flutuante sobre as cristas das águas. Mais parecia uma paisagem picotada a pontos brancos, em toda a extensão visual. » ------- 8ª edição, revista e reescrita pelo autor.
«Cadete garantia, por uma espécie de sofisma da sua mente complicada, que o mar dos Açores era branco. Porém, as crianças sustentavam que nenhuma cor deste mundo podia definir a eternidade da água, porquanto essa contínua convulsão aproximava o seu aspecto não da saliva das cobras e dos seus ninhos, mas da humidade sem cor de qualquer réptil. Era um mar de rodilhas, um mar asmático, de lixívia em tecidos puídos e sem obra, e a sua magríssima água, rochosa e salina, expelia para a terra uma respiração de sono sem pálpebras.» ------- edições anteriores.
 

07 agosto 2017

CAIU UM AVIÃO!

«JOÃO-MARIA ESTAVA DE CÓCORAS, FAZENDO CACA NO QUINTAL, QUANDO TUDO ACONTECEU. PERCEBEU, PRIMEIRO, QUE UM RUÍDO SEMELHANTE AO DESMORONAR DAS FRAGAS NUMA PEDREIRA crescia de longe ao seu encontro e vinha sobrepor-se à sonatina das ondas e ao tráfego agoirento das cagarras.»  --- JOÃO DE MELO, O Meu Mundo não É deste Reino, Capítulo 13, Edição Visão / D. Quixote, Julho de 2003.
Agora dirão as leitoras tratar-se de mais um exemplo de literatura escatológica. Imagino a justa indignação, as leituras da Comunidade destravadas pelas vertentes lívidas do mau gosto. Por acaso, até é um fragmento importante do imaginário da Ilha: o acidente do Lockheed L-749-79-22 Constellation, vôo Paris-Nova Iorque, em 28 de Outubro de 1949. Deu-se no Pico da Vara e nele morreram 48 pessoas, entre elas, figuras notórias à época, o pugilista Marcel Cerdan, a violinista Ginette Neveu e o seu irmão Jean Neveu, pianista.
Leia-se que é um belo capítulo do livro.

01 agosto 2017

"O Meu Mundo Não é Deste Reino" de João de Melo - 25 de Agosto às 21h00.


Sinopse

João de Melo apresenta-nos uma crónica dos prodígios que fazem a história de uma comunidade rural perdida algures nos Açores. Narrativa mítica, sem cronologia, que começa in illo tempore (em português arcaizante) e prossegue seguindo o fio das ocorrências fantásticas (a chuva dos noventa e nove dias, o dia em que os animais choraram, o dia em que se viu a outra face do sol, a morte e ressurreição de João Lázaro) e das vidas de personagens excessivos e arquetípicos (um padre venal, um regedor hercúleo e despótico, um curandeiro e um santo) que povoam um lugar perdido nas brumas do tempo, no outro lado da ilha, progressivamente devolvido à comunicação com o mundo.

Ding, ding, ding .... chamada à ordem!


Isto de conduzir um rebanho, mesmo de bons e interessados leitores nem sempre é coisa fácil! A paixão pelas leituras e o entusiasmo do momento, leva-nos muitas vezes àquela característica tão própria dos lusitanos que é falarmos todos ao mesmo tempo e, por vezes, a Babilónia instala-se antes que demos por isso. Mas na última sessão, onde discutimos o muito elogiado "Cântico Final" de Vergílio Ferreira, eis que surge uma bela campainha, para ajudar na condução dos trabalhos. Chegou discreta e elegante, mas certamente vai vibrar e fazer-se ouvir energicamente sempre que a ocasião o justifique. Bem vinda Miss Ding, Ding....


25 julho 2017

EXISTENCIALISMO E LITERATURA

«Só meditando profundamente no que significa a morte, é que nós poderemos ver bem o que com ela se perde e o valor disso que se perde. Por outro lado, a morte é uma prefiguração do que de limite, de fim, preside a todos os actos da vida, já que a cada instante nós estamos de algum modo a realizar actos irremediáveis. A meditação da morte não é pois um fim, mas um meio. Meio de valorizarmos a vida, meio de assim mesmo respeitarmos a vida nossa e alheia, meio de reflectirmos sobre o irremediável do que formos fazendo, meio, em suma, de encararmos a sério esse facto extraordinário que é a vida do homem.»
--- VERGÍLIO FERREIRA, "Existencialismo e literatura".
 
 
 
 

24 julho 2017

"CÂNTICO FINAL", MEDITAÇÃO SOBRE A MORTE

Francisco de Goya, Fuzilamentos de três de Maio de 1808
Abriu a revista, e Mário sofreu uma ataque de agonia. Era uma reportagem sobre fuzilados de uma revolução num país distante: fotografia de um dos condenados bebendo o cálice de rum; fotografia do instante do fuzilamento («como um quadro de Goya» - dizia o repórter).
--- VERGÍLIO FERREIRA, Cântico Final, cap. X.
 

17 julho 2017

AS EGAP-EXPOSIÇÕES GERAIS DE ARTES PLÁSTICAS EM "CÂNTICO FINAL"

Diário da Manhã, órgão oficioso da União Nacional salazarista, na sua edição de 9 de Maio de 1947

Uma das perspectivas de Cântico Final, de Vergílio Ferreira, é a que se prende com o debate sobre arte que nos anos do pós-guerra teve lugar entre os intelectuais e artistas portugueses. No seio da corrente neo-realista, preparavam-se as grandes polémicas dos anos cinquenta, de que as referências aos críticos Ramiro e Rebelo se constituem como uma evidente alusão ficcional. De interesse, a referência a uma das Exposições Gerais de Artes Plásticas (talvez a de  1947), certames que agregavam artistas independentes – leia-se, não vinculados às iniciativas do SPN/SNI – procedentes de diversas orientações estéticas, do neo-realismo ao abstracionismo. Em que corrente se integraria o “Galo” do protagonista Mário?
Cerca de cem artistas, não só de diversas tendências estéticas mas de diferentes ramos da arte estiveram presentes na I Exposição, a de 1946. Ao princípio, o poder constituído não desconfiou de nada; depois é que se deu conta do que ali se preparava de subversivo.  As EGAP realizaram-se anualmente de 1946 a 1956, com excepção de 1952, ano em que a Socidade Nacional de Belas-Artes se encontrava encerrada  pela PIDE.

12 julho 2017

ONDAS DO MAR DE VIGO

7-7-2017, Estação de Vigo-Guixar, a apanhar o comboio para Oporto com o jogral MARTIM CODAX no pensamento.
 
CANTIGA D´AMIGO
 
Ondas do mar de Vigo,
se vistes  meu amigo!
e ai Deus, se verrá cedo!
 
Ondas do mar levado,
se vistes meu amado!
e ai Deus, se verrá cedo!
 
Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro!
e ai Deus, se verrá cedo!
 
Se vistes meu amado
por que ei gram cuidado!
e ai Deus, se verrá cedo!
 


11 julho 2017

"Cântico Final" de Vergílio Ferreira - 28 de Julho - 21h00

A abrir:

“Por uma manhã breve de Dezembro, um homem subia de automóvel uma estrada de montanha. Manhã fina, linear. O homem parou um pouco, enquanto o motor arrefecia, e olhou em volta, fatigado. Aqui estou. Regressado de tudo. Pelo vale extenso até a um limite de neblina, viam-se aqui e além indícios brancos de aldeias, brilhando ao sol. Que dia é hoje? Pelos campos perpassava uma alegria estranha, talvez do sol e daquele fundo silêncio a toda a volta, sem uma voz repentina das que sobem e vibram nas manhãs de trabalho. E de súbito lembrou-se: para o fundo do vale, ouviu o dobre dos sinos do Freixo. Manhã de domingo, manhã de infância, sinos de outrora…”


In “Cântico Final” de Vergílio Ferreira

29 junho 2017

A CAPA DO ELOGIO

Alegoria com Vénus e Cupido, 1545, Bronzino

INGRES, MUSEU DO LOUVRE

2014, Museu do Louvre, sob o encantamento de Ingres... O Elogio tem de bom trazer estas coisas à memória.



ANUNCIAÇÕES

Esta, ortodoxa, do pintor Andei Rubliov (lembrar o filme de Tarkovsky), na Catedral da Anunciação, Kremlin de Moscovo.
...É como se a conversa tivesse terminado, nada há a acrescentar...Fiat! Bem à maneira ortodoxa.


















                                                                                                     

MAIS VERSÕES DE VÉNUS COM O AMOR E...

Do mesmo Ticiano (ou Tiziano), para deleite dos encomendadores, ao tempo, e nosso, agora.




27 junho 2017

CANDAULES, REI DA LÍDIA

WILLIAM ETTY (1787-1849), Candaules, King of Lydia, Shews his Wife by Stealth to Gyges, One of his Ministers, as She Goes to Bed (1830), óleo sobre tela.
 
 

23 junho 2017

SOBRE O "ELOGIO DA MADRASTA"


Impressões de uma amiga, não frequentadora da nossa Comunidade, que leu o livro há alguns anos:

Llosa, no Elogio da Madrasta, certamente uma consistente composição narrativa, de trechos interpolados e magníficas descrições de pinturas famosas, eróticas, todavia de anteriores épocas, enquadradas em rica e poética intertextualidade, foi obra lida há tempos. Tesouro de construção literária, deixou-me azedume face ao enteado, adolescente em afirmação de poder contra e sobre o feminino, a madrasta, mulheraça de contornos idênticos ao do seu marido, superior na hierarquia do jovem,  não a empregada doméstica, sua subordinada, a que depois se lança - as mulheres da casa, a mulher instanciada nas mais próximas, sei lá… Se as primeiras emoções sexuais assim se esboçam... patriarca no poleiro, a decidir e o adolescente já a querer substituí-lo, desprezando e servindo-se do outro (como a madrasta dele, claro) , está-se face a perversão das relações desejáveis em comunidade - não no mero sentido sexual. Espelho de certo meio social, infecção de duas gerações? Sátira? (…) E um rasto de certo humor discreto. Contudo a beleza da escrita não me empolga, excessivo para a temática: seres submetidos a impulsos por si mesmos, sensualidade pela sensualidade que nisso se esgota, ternura zero, encerrados seus autores num casulo, não há outros nem cosmos, mais nada. Estranho. Jogos num campo único, sem mais sopro vital. Lembro os rituais corporais, os banhos, e isso é interessante, iniciáticos, mais velhos a passar testemunho ao adolescente, certo plano mítico. Muitas vidas comunitárias ( penso em certo monaquismo, como em Quram, que visitei) dispunham de inúmeros reservatórios de águas destinadas a sucessivos banhos. Atenção a uma corporalidade neste caso banida, expandida em Llosa. Curiosa ritualização, evoca-me a sacralidade inicial, SACER no indoeuropeu, que era a fecundidade, tudo o que faz crescer, e inchar, GONFLER. Acento na fisicalidade, sem contornos além do encontro de corpos. Todavia, do que retive na memória, é uma duplicidade, inocência-perversão o foco da obra: a relação madrasta-enteado e o desejo mútuo, mas já acima apontei como senti tal acordar para a sexualidade. Vejo-o negativo, não penso que deva seguir o desejo por vias de vontade de domínio, de manipulação, de denúncia - a redacção e sua leitura não são inocentes; como nem a frase final,  tipo, «mas ela não é minha mãe», incesto arredado; ou o desvio de «amar a mãe», «usar a madrasta», de cabeça um tanto oca. Creio ser mais o determinar-se a usurpar o poder familiar do pai.
 

15 junho 2017

PARA QUEM NÃO SAIBA...

... A HISTÓRIA TEM CONTINUAÇÃO
«Bateram à porta, Dona Lucrécia foi abrir e, retratada no vão, com o fundo das tortuosas e encanecidas árvores do Olivar de San Isidro, viu a cabeça de caracóis dourados e os olhos azuis de Fonchito. Tudo principiou a girar.»
 

11 junho 2017



Sinopse

Lucrécia e dom Rigoberto vivem em constante felicidade. Ela, uma mulher que acaba de completar 40 anos, nada perdeu da sua elegância e sensualidade; ele, no segundo casamento, descobriu por fim os prazeres da vida conjugal. Juntos, crêem que nada pode afetar esse idílio, cheio de fantasias e de sexo. Alfonso, ou Fonchito, filho de dom Rigoberto, parece ser o único empecilho; ama demais sua mãe, Eloísa, para aceitar a chegada de uma madrasta. Mas até ele acaba por ser conquistado pelos encantos de dona Lucrécia. O amor do menino pela sua madrasta, entretanto, vai muito além do que se esperaria de uma criança, desenhando uma linha ténue entre a paixão e a inocência que mudará o destino de cada um deles.

01 junho 2017

NÓS, OS DE VONDELPARK

MANUEL TEIXEIRA-GOMES, novela Deus ex machina:
«Um dia que eu ficara de me encontrar em Vondel-Park – próximo ao Rijsks-Museum – com vários elegantes de ambos os sexos para dali seguirmos  em excursão de patinagem até Harlém, logo à entrada do parque, numa volta estreita e mal concorrida do lago, a atenção prendeu-se-me irresistivelmente numa rapariga encantadora, de farta e negra cabeleira solta, que patinava sozinha, e fiquei-me a contemplar-lhe os graciosos movimentos sem mais me lembrar de que a poucos metros de distância era impacientemente esperado por um numeroso grupo de amigos.» --- A acção desta novela decorre no Inverno de 1890. Cheguei a Vondelpark tarde de mais, precisamente na manhã do dia de Natal de 2013 – 123 anos depois de Manuel Teixeira-Gomes –, e já não vi a rapariga encantadora de farta e negra cabeleira solta. Naquela altura  o lago não estava gelado e àquela hora da manhã nenhuma rapariga por ali andava, mas alegrei-me de dar com a estátua do poeta Joost van den Vondel (1587-1679), figura maior do século de ouro holandês. É ele, como se percebe, que dá nome ao parque. A estátua, inaugurada em 1867, não teria passado despercebida ao escritor algarvio, mas que interesse podia ter a pedra e o bronze ante os movimentos graciosos da patinadora?  
     

31 maio 2017

A LITERATURA ERÓTICA EM 1935





Novelas Eróticas, edição "Seara Nova" de 1935 (ano da morte de Fernando Pessoa), com advertência aos leitores: LEITURA PARA ADULTOS. Fica-se a saber que teve uma tiragem de 300 exemplares FORA DO COMÉRCIO. --- Fotografias obtidas ontem em exemplar de biblioteca pública.  
 

30 maio 2017

O SÍTIO DA MULHER MORTA

 
 

Uma das novelas eróticas de Manuel Teixeira-Gomes que ontem reli na BN nesta edição preciosa. De um ensaio de Urbano Tavares Rodrigues, respigo a seguinte nota a respeito de outra novela, a "Deus ex machina": « O que nos impressiona desde logo, como aliás sucede com a maior parte das novelas e contos de Teixeira-Gomes, é a desproporção entre a riqueza do discurso e a relativa pobreza da estória (...)» Ora isto fez-me lembrar a nossa leitura de Ronda das Mil Belas em Frol e as apreciações atinentes de algumas leitoras. De qualquer forma, tendo em conta o conjunto da obra, Mário de Carvalho ainda está uns furos acima de Manuel Teixeira-Gomes.

25 maio 2017

PHILÉAS LEBESGUE, POETA E AGRICULTOR

Mais n´est-tu pas toi même un
jet d´eau qui s´irise
Et qui vers l´infini s´élance et
puis se brise?...
 
Conto "Cordélia", de M. Teixeira-Gomes, epígrafe de Philéas Lebesgue (1869-1958). O poeta francês, que entre 1911 e 1933 esteve por três vezes em Portugal, correspondeu-se com o autor das Novelas Eróticas e ainda com Sá-Carneiro, Teixeira de Pascoaes, Téofilo de Braga e Bernardino Machado. Mais informação aqui: http://www.maisons-ecrivain-picardie.fr/ecrivains-celebres-picardie-biographie-La-maison-de-Phileas-Lebesgue-fr-15.html




09 maio 2017

"Novelas Eróticas" de Manuel Teixeira-Gomes - 2 Junho às 21h00


A abrir o conto sem nome ou chamado apenas "?"

"O meu quarto na hospedaria Fra Giaccomo em Smirna, era uma gaiola de vidro suspensa sobre o mar, e isso concorreu muito para que eu aí me demorasse mais do que projectara. Não que o panorama fosse risonho; bem pelo contrário. A desarmónica imensidade do golfo, a disposição das esmagadoras montanhas vizinhas, a cidade que não brilha, com o seu casario escuro apinhado nas encostas, nas alturas recortadas de ameias, restos de arruinadas fortificações antigas, todo este conjunto formava um quadro melancólico. E a pretensiosa fachada italiana da cidade (existiria ela ainda?) que levantaram sobre o cais, a semelhança de Messina, era mais um engano que a ninguém alegrava nem contentava. Depois, a situação moral dos habitantes (domínio de dez mil turcos sobre trezentos mil italianos, gregos, arménios e judeus), os receios, os terrores mal disfarçados da população cristã, a qual dir-se-ia que julgava próxima e inevitável a chacina exterminadora com que os muçulmanos a ameaçavam, diariamente e sem rebuço, junto a uma profunda crise económica, alimentavam a atmosfera de tristeza que a paisagem, com os seus inúmeros ciprestes, por seu turno acentuava..."

in "Novelas Eróticas" de Manuel Teixeira-Gomes

03 maio 2017

Sessão de Maio, que será em ... Junho!


Caros Amigos

Por razões devidamente justificadas e mais do que válidas, a sessão de 26 de Maio ("Novelas Eróticas" de Manuel Teixeira Gomes) passa para 2 de Junho. Atentai, pois então! E obrigada!


27 abril 2017

SOBRE LITERATURA E LEITURAS

JOSÉ RÉGIO há perto de 90 anos:
 
Literatura é pura e simplesmente um meio de expressão artística - como a pintura, a escultura, o cinema, a dança, a arquitectura, a música.
 
O que então inspira a obra de arte - é a paixão; e uma paixão considerada infamante ou uma paixão considerada nobre - podem da mesma forma inspirar Obras elevadas sob o ponto de vista que nos interessa : estético. O ideal do Artista nada tem a ver com o do moralista, do patriota, do crente, ou do cidadão: Quando sejam profundos e quando se tenham moldado a uma certa individualidade, tanto o que se chama um vício como o que se chama uma virtude podem ser igualmente poderosos agentes da criação artística: podem ser elementos de vida duma Obra.
 
Acuso aqui os nossos críticos de não se interessarem pelas Obras de Arte que pretendem criticar.
 
E dir-se-ia que eles exigem tudo da literatura - a morigeração dos costumes; a formação do carácter; a solidificação das convenções sociais; o robustecimento da raça; a certificação do dogma da Imaculada; a extirpação da hidra jesuítica; a defesa do feminismo; o progresso da Associação dos Scotes; a propaganda da república, da monarquia, do anarquismo, do socialismo, do bolchevismo, do óleo de rícino, dos pós de Keating, do calçado Atlas, das calças largas, dos milagres de Fátima, ou das predilecções particulares de cada um - tudo, menos o que se deve exigir à literatura, como à pintura, à dança, à escultura, ao cinema, à arquitectura, à música: satisfação à nossa necessidade de emoções estéticas.
 

24 abril 2017


CARÍSSIMOS LEITORES, ATENTEM NO SEGUINTE:

www.ccb.pt/Default/pt/DiasDaMusica/Sabado/Evento?a=978

(Lá estaremos, "algumas" de nós, para dar testemunho?)


10 abril 2017

"Ronda das mil belas em frol" de Mário de Carvalho, 28 de Abril às 21h00


A Sinopse diz assim:

"Eis um livro de ficção sobre sexo. Todas as histórias nele contidas narram percalços, espantos e sobressaltos de ligações íntimas entre homens e mulheres. O que se desvenda, o que se oculta. Rasgos perversos. Permanências e rupturas.

Nem sempre se encontra o que se espera, nem se espera o que se encontra. A variedade é avassaladora. A diferença inevitável. Neste jogo de corpos enlaçados, não poucas leitoras ficarão admiradas com certo olhar masculino. Talvez passem a conhecer ainda melhor outras mulheres. E os leitores também não perdem nada em saber o que pode surpreendê-los nas voltas do mundo."

A ver vamos ...

Livro em curso: "Ronda das mil belas em frol" de Mário de Carvalho

04 abril 2017

Vamos voltar à Sexta-feira!


 Amigos

Como já será do conhecimento da maior parte dos membros da Comunidade de Leitores de SDRana e face à nova disponibilidade da nossa Biblioteca, vamos voltar a reunir na última sexta-feira de cada mês entre as 21h00 e as 23h45.

Assim, as sessões da Comunidade para o segundo trimestre serão em

Abril, dia 28
Maio, dia 26
Junho, dia 30

01 março 2017

"Quantas Madrugadas Tem a Noite" de Ondjaki - 25 de Março às 15h00

A abrir

"Sabes o que é não sentir o coração e sentir o coração, tud’uma batida só, sangue leve no peito e lágrimas limpas a escorrer? Faz conta foste na pesca, rede e tudo, e em vez do peixe grande meteste a rede na água e te veio uma nuvem? Se é impossível? Eu sei lá, avilo, eu sei lá... Desde candengue que ando então a ver as nuvens dançar nas peles do mar, e me pergunto: assim calminho, liso tipo carapinha com desfrise, o mar não tem as nuvens dele também? De onde eu venho é muito longe, por isso, juro mesmo, nasci de novo. Vou te confessar: espanto é só aquilo que ainda nunca tínhamos vivido com a nossa pele!
Avilo, desculpa tanta filosofia, o que tenho é sede mesmo..."

in "Quantas Madrugadas Tem a Noite" de Ondjaki