24 abril 2017


CARÍSSIMOS LEITORES, ATENTEM NO SEGUINTE:

www.ccb.pt/Default/pt/DiasDaMusica/Sabado/Evento?a=978

(Lá estaremos, "algumas" de nós, para dar testemunho?)


10 abril 2017

"Ronda das mil belas em frol" de Mário de Carvalho, 28 de Abril às 21h00


A Sinopse diz assim:

"Eis um livro de ficção sobre sexo. Todas as histórias nele contidas narram percalços, espantos e sobressaltos de ligações íntimas entre homens e mulheres. O que se desvenda, o que se oculta. Rasgos perversos. Permanências e rupturas.

Nem sempre se encontra o que se espera, nem se espera o que se encontra. A variedade é avassaladora. A diferença inevitável. Neste jogo de corpos enlaçados, não poucas leitoras ficarão admiradas com certo olhar masculino. Talvez passem a conhecer ainda melhor outras mulheres. E os leitores também não perdem nada em saber o que pode surpreendê-los nas voltas do mundo."

A ver vamos ...

Livro em curso: "Ronda das mil belas em frol" de Mário de Carvalho

04 abril 2017

Vamos voltar à Sexta-feira!


 Amigos

Como já será do conhecimento da maior parte dos membros da Comunidade de Leitores de SDRana e face à nova disponibilidade da nossa Biblioteca, vamos voltar a reunir na última sexta-feira de cada mês entre as 21h00 e as 23h45.

Assim, as sessões da Comunidade para o segundo trimestre serão em

Abril, dia 28
Maio, dia 26
Junho, dia 30

01 março 2017

"Quantas Madrugadas Tem a Noite" de Ondjaki - 25 de Março às 15h00

A abrir

"Sabes o que é não sentir o coração e sentir o coração, tud’uma batida só, sangue leve no peito e lágrimas limpas a escorrer? Faz conta foste na pesca, rede e tudo, e em vez do peixe grande meteste a rede na água e te veio uma nuvem? Se é impossível? Eu sei lá, avilo, eu sei lá... Desde candengue que ando então a ver as nuvens dançar nas peles do mar, e me pergunto: assim calminho, liso tipo carapinha com desfrise, o mar não tem as nuvens dele também? De onde eu venho é muito longe, por isso, juro mesmo, nasci de novo. Vou te confessar: espanto é só aquilo que ainda nunca tínhamos vivido com a nossa pele!
Avilo, desculpa tanta filosofia, o que tenho é sede mesmo..."

in "Quantas Madrugadas Tem a Noite" de Ondjaki

26 fevereiro 2017

PÓS-SESSÃO, ONTEM, NO CCB

«O teu amor quando palpita / verdade seja dita / faz-me atrasar os ponteiros /como a ostra esconde a pérola / aos viveiros.» - Sérgio Godinho cantado por Cristina Branco.
Sessões de autógrafos: a de ontem e a antiga
 
 

25 fevereiro 2017

Três dezenas de leitores...

 
 
 
 
 
 
... é o número médio que andamos a registar nas nossas sessões mensais. Hoje marcaram presença 29 leitores. Tendo presente realidades de outras comunidades de leitores, constato que a nossa está bem cimentada, com um grupo coeso e cada vez mais interessado nas leituras propostas. Reunir nesta Biblioteca, uma vez por mês  numa tarde de Sábado, 3 dezenas de pessoas que vão pelo prazer de falar sobre um livro (e tudo o mais que daí advém), começa a ser digno de registo. A magia dos livros tem destas coisas! 

Hoje, Agualusa levou-nos pelos caminhos da construção de memórias, de passados imaginados tornados reais. Pelo caminho veio Eça, Borges, a lusofonia, o riso das osgas asiáticas e os meandros negros da política, entres outros. Para alguns, com reais vivências africanas, as memórias que vieram à luz, foram emotivamente partilhadas com os demais. Foi mais uma sessão, forte na partilha do conhecimento em que, a diferença das opiniões não divide, mas une e enriquece. Que venha a próxima!

17 fevereiro 2017

"O VENDEDOR DE PASSADOS", de José Eduardo Agualusa


--- Transcrevo a introdução de um trabalho académico feito por este escrevente no ano lectivo de 2007/2008, ano curricular do mestrado, seminário de Literaturas de Língua Portuguesa:

INTRODUÇÃO

Ao pretendermos estudar o romance O Vendedor de Passados, de José Eduardo Agualusa, não podemos deixar de ter em consideração a visão dicotómica de Pires Laranjeira em relação à actualidade literária de Angola:

«No pós-independência, há na literatura um discurso ideológico do poder e outro do contra-poder. O discurso do poder procura legitimá-lo pelo poder do enraizamento e da nacionalidade. O discurso do contra-poder não discute a nacionalidade, mas pode discutir o modo como ela se legitimou, recuando às origens. Ou pode simplesmente silenciá~la, enquanto tema, ou secundarizá-la.»

José Eduardo Agualusa nasceu na cidade do Huambo (Nova Lisboa na toponímia colonial) em 1960 e é considerado um escritor da diáspora. De facto, já residiu em Olinda, Brasil, país aonde se desloca com frequência e onde desenvolve, ao que julgamos saber, projectos editoriais. Estanciou em Berlim, onde escreveu, ao abrigo de uma bolsa de criação literária da Deutscher Akademischer Austausschdienst, o romance O Ano em que Zumbi Tomou o Rio (2002). Reside actualmente em Lisboa.

Perpassa pela sua obra, logo desde o primeiro romance, A Conjura (1989), e, em especial , em Nacão Crioula (1998) - onde se revela a “correspondência secreta” de Fradique Mendes e a surpreendente adaptação daquela personagem queirosiana ao mundo tropical – a afirmação dos valores da miscigenação, não apenas rácica mas, sobretudo, cultural, o que o leva a desenvolver um projecto literário onde já se apontaram indícios das teorias luso-tropicalistas de Gilberto Freyre ou, no mínimo, as marcas da crioulidade que Mário António Fernandes sustentou na sua produção ensaística.

Pesará nesta inclinação intelectual a origem do escritor, nascido em Angola mas filho de pai com raízes portuguesas e de mãe com ascendência brasileira. A própria repartição espacial da sua vida e as iniciativas que desenvolve no triângulo Angola-Portugal-Brasil, contribuem para a imagem de um escritor dividido pelos espaços da lusofonia, essa comunidade de falantes em que os Portugueses tendem a ver o que sobrou dos estilhaços do Império  e que Eduardo Lourenço já apresentou como uma miragem cultural ou a imagem actual do nosso mapa cor-de-rosa. É, de resto, esse território mítico desfeito pelo ultimato inglês de 1890 que, de certa forma, surge no seu último livro, As Mulheres de Meu Pai, uma viagem de Angola à contracosta, realizada desta feita pelo litoral africano, de Luanda à Ilha de Moçambique.

Em O Vendedor de Passados opera-se uma dessacralização da terra natal e da sua História, tocando-se  em complexos motivos como a invenção da memória ou o vazio dela na emergente nação angolense. O livro é marcado por uma epígrafe de Jorge Luís Borges e um narrador que nos atreveríamos a chamar borgiano, embora o modelo não se possa considerar original.

Assim, o nosso trabalho sobre a obra e o autor escolhidos, desenvolver-se-á segundo as seguintes linhas temáticas:

1. O mito da nação crioula.

2. Nação angolense e valores identitários.

3. O 27 de Maio de 1977.

4. Queirosianismo e ironia queirosiana.

5. Processos narrativos: as sombras de Jorge Luís Borges e Lygia Fagundes Teles.

--- Aqui fica a introdução, há mais 10 páginas.  Desculpem qualquer coisinha, ó leitores, que isto é trabalho de simples escolar. A nota até não foi má.

04 fevereiro 2017

O Berço

"...À noite, no quarto de engomar, a minha criada Gervásia sentou-me no chão, embrulhado num saiote. De quando em quando, rangiam no corredor as botas do João, guarda da alfândega, que andava a defumar com alfazema. A cozinheira trouxe-me uma fatia de pão-de-ló. Adormeci; e logo achei-me a caminhar à beira de um rio claro, onde os choupos, já muito velhos, pareciam ter uma alma e suspiravam; e ao meu lado ia andando um homem nu, com duas chagas nos pés, e duas chagas nas mãos, que era Jesus, Nosso Senhor. 
Passados dias, acordaram-me, numa madrugada em que a janela do meu quarto, batida do sol, resplandecia prodigiosamente como um prenúncio de cousa santa. Ao lado da cama, um sujeito, risonho e gordo, fazia-me cócegas nos pés com ternura e chamava-me brejeirote. A Gervásia disse-me que era o Senhor Matias, que me ia levar para muito longe, para casa da tia Patrocínio; e o Senhor Matias, com a sua pitada suspensa, olhava espantado para as meias rotas que me calçara a Gervásia. Embrulharam-me no xale-manta cinzento do papá; o João, guarda da alfândega, trouxe-me ao colo até à porta da rua, onde estava uma liteira com cortinas de oleado..." 

in "A Relíquia" de Eça de Queirós

"...O mulato Fausto Bendito Ventura, alfarrabista, filho e neto de alfarrabistas, encontrou numa manhã de domingo um caixote à porta de casa. Lá dentro, estendido sobre vários exemplares d’ A Relíquia de Eça de Queirós, estava uma criaturinha nua, muito magra e deslavada, com um cabelo de espuma incandescente, e um límpido sorriso de triunfo. Viúvo, sem filhos, o alfarrabista recolheu o menino, criou-o e educou-o, seguro de que um desígnio superior armara a improvável trama. Guardou o caixote, bem como os respectivos livros. O albino falou-me disto com orgulho: – Eça foi o meu primeiro berço. ..."

in "O Vendedor de Passados" de José Eduardo Augualusa

01 fevereiro 2017

“O Vendedor de Passados” de José Eduardo Agualusa, 25 de Fevereiro às 15h00

A abrir:

“Nasci nesta casa e criei-me nela. Nunca saí. Ao entardecer encosto o corpo contra o cristal das janelas e contemplo o céu. Gosto de ver as labaredas altas, as nuvens a galope, e sobre elas os anjos, legiões deles, sacudindo as fagulhas dos cabelos, agitando as largas asas em chamas. É um espectáculo sempre idêntico. Todas as tardes, porém, venho até aqui e divirto-me e comovo-me como se o visse pela primeira vez. A semana passada Félix Ventura chegou mais cedo e surpreendeu-me a rir enquanto lá fora, no azul revolto, uma nuvem enorme corria em círculos, como um cão, tentando apagar o fogo que lhe abrasava a cauda.
– Ai, não posso crer! Tu ris?!
Irritou-me o assombro da criatura. Senti medo mas não movi um músculo. O albino tirou os óculos escuros, guardou-os no bolso interior do casaco, despiu o casaco, lentamente, melancolicamente, e pendurou-o com cuidado nas costas de uma cadeira. Escolheu um disco de vinil e colocou-o no prato do velho gira-discos. “Acalanto para um Rio”, de Dora, a Cigarra, cantora brasileira que, suponho, conheceu alguma notoriedade nos anos setenta. Suponho isto a julgar pela capa do disco. É o desenho de uma mulher em biquíni, negra, bonita, com umas largas asas de borboleta presas às costas. “Dora, a Cigarra – Acalanto para um Rio – O Grande Sucesso do Momento”. A voz dela arde no ar. Nas últimas semanas tem sido esta a banda sonora do crepúsculo…”

“O Vendedor de Passados” de José Eduardo Agualusa


25 janeiro 2017

PALAVRAS PARA QUE VOS QUERO

A propósito de Luuanda e do papagaio Jacó, vede isto, ó leitores, publicado pelo escrevente há 11 anos, era ainda uma criança:

http://sonhocomandavida.blogspot.pt/search?q=Jac%C3%B3

03 janeiro 2017

"Luuanda" de José Luandino Vieira - 28 de Janeiro às 15h00


A abrir

Tinha mais de dois meses a chuva não caía. Por todos os lados do musseque, os pequenos filhos do capim de novembro estavam vestidos com pele de poeira vermelha espalhada pelos ventos dos jipes das patrulhas zunindo no meio de ruas e becos, de cubatas arrumadas à toa. Assim, quando vavó adiantou sentir esses calores muito quentes e os ventos a não querer mais soprar como antigamente, os vizinhos ouviram-lhe resmungar talvez nem dois dias iam passar sem a chuva sair. Ora a manhã desse dia nasceu com as nuvens brancas — mangonheiras no princípio; negras e malucas depois — a trepar em cima do musseque. E toda a gente deu razão em vavó Xíxi: ela tinha avisado, antes de sair embora na Baixa, a água ia vir mesmo. 

A chuva saiu duas vezes, nessa manhã.

in Luuanda de José Luandino Vieira

21 dezembro 2016

É tempo de Balanço ....

O dia do solstício de Inverno é um dia tão bom para fazer balanço, como qualquer outro! Por isso cá vai ...

12 meses, 12 livros e tanto, mas tanto mais…

Em Janeiro reunimos no restaurante "Flor do Bairro", fruto da alteração do dia e hora das nossas sessões. Tivemos que deixar o intimismo das sessões nocturnas de sexta-feira, numa das salas repletas de livros da biblioteca e passar para os sábados à tarde na sala multiusos, com a “nudez e frieza” que lhe está associada. Perdemos com a troca e ainda não estamos totalmente habituados ao novo espaço. Afinal foram 10 anos ombro a ombro com aquilo que de mais precioso nos leva ali: os livros!



No primeiro trimestre do ano chegou o ciclo “Neo-realismo na Literatura Portuguesa” e claro que não podiam faltar “Gaibéus”, de Alves Redol, “Esteiros”, de Soeiro Pereira Gomes e “Casa na Duna”, de Carlos de Oliveira. Imbuídos do espírito, não deixámos passar a oportunidade e rumámos a Vila Franca de Xira e Alhandra à procura dos “filhos dos homens que nunca foram meninos”…



Para o segundo trimestre decidimo-nos pela “Literatura de Expressão Anglófona “ e dissecámos nos 3 meses “O Adeus às Armas”, de Ernest Hemingway, “Boneca de Luxo”, de Truman Capote e “O Fio da Navalha" de Somerset Maugham. 

Foi também um período intenso de actividades. Em Abril (e num dia de anos especial), fomos comemorar Eça de Queiroz e o 141º aniversário da publicação de O Crime do Padre Amaro, numa expedição a Leiria em torno de “A Rota d´O Crime”, alusiva ao entrecho do conhecido romance.



Entretanto, alguns dos nossos marcaram presença em duas sessões do ciclo de conversas “O escritor no seu labirinto”, na nossa Biblioteca, em Maio com Mário Carvalho e em Julho com Mário Zambujal. 

Junho foi um daqueles meses que fica para a história da Comunidade: aconteceu a tão desejada visita a La Mancha. Cervantes, El Greco, D. Quixote e Sancho, tornaram-se finalmente realidade para os membros desta comunidade que há cerca de 2 anos, andam na demanda das aventuras do Cavaleiro da “triste figura”.


Com o Verão chegaram os Russos (“Lolita”, de Vladimir Nabokov, “Margarita e o Mestre”, de Mikhail Bulgakov e “A Morte de Ivan Ilitch”, de Leon Tolstoi), as altas temperaturas e também muita animação. Começámos com uma extraordinária “viagem” no Convento de Cristo em Tomar, com direito a cânticos à capela, teatro ambulante e ceia medieval;   “Reviver o passado em Almada”, levou o grupo à margem sul numa digressão saudosista mas também renovadora; o habitual “Concerto de Órgãos” no Convento de Mafra (este ano excepcionalmente bom!); um memorável passeio pelas memórias citadinas da Paula, que nos levou do Martim Moniz à Graça; um programa nocturno no museu da cidade, com uma sessão de cinema ao ar livre “Les amants du pont neuf”, onde a bela Binoche não desiludiu, pese embora o “disfarce” da personagem. A encerrar o Verão, vieram os fabulosos concertos das sinfonias de Beethoven, no Terreiro do Paço. A música clássica mesmo ali ao alcance dos dedos.


Para o último trimestre do ano guardámos os Brasileiros (“Budapeste”, de Chico Buarque, “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos e “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres”, de Clarice Lispector) e terminámos com o já habitual jantar de convívio natalício, como manda a tradição.


Pelo meio aconteceram tantas outras coisas. O Teatro de S. Carlos já é praticamente uma tradição anual, com o seu fabuloso “Festival ao Largo”, a ganhar cada vez mais adeptos. Em Lisboa, muitos foram os pretextos que nos levaram à descoberta da cidade, não só pelas caminhadas no coração dos seus bairros, mas também na adesão às muitas iniciativas culturais que ali acontecem. Os moinhos de maré de Corroios e Seixal e a margem sul têm sido também um pólo de atracção para os membros desta Comunidade, com várias visitas realizadas. 


E assim caminhamos para mais um ano de leituras, sempre de espírito renovado e aventureiro.

 Festas Felizes caros Leitores!

“Tríptico de la Adoración de los Magos” - El Bosco, Hacia 1494. Grisalla, Museu do Prado 

12 dezembro 2016

Loreley ...

Ilustração encontrada na net


" ... - Não estou certo de você não sabe. É uma pena que seu apelido seja Lóri, porque seu nome Loreley é mais bonito.Sabe quem era Loreley?
- Era alguém?
- Loreley é o nome de um personagem lendário do folclore alemão, cantado num belíssimo poema de Heine. A lenda diz que Loreley seduzia os pescadores com seus cânticos e eles terminavam morrendo no fundo do mar, já não me lembro mais de detalhes ..." 

in "Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres" de Clarice Lispector.

Fiquei curiosa sobre o poema e procurei-o na internet. Em Português, encontrei apenas esta tradução de um blogger brasileiro,  R. S. Kahlmeyer-Mertens.

Eu não sei o sentido
De tristeza tão assaz
Por um conto de tempo ido
Que significado a mim não traz.
O ar fresco e profundo,
O Reno manso a fluir;
Das montanhas cintila o cimo;
Da tarde de sol, o luzir.
A mais bela moça sentada
Em maravilhoso lugar,
Seu cabelo dourado penteia,
Com o ouro dos adornos a lampejar.
Ela alisa louras cãs caídas aos ombros
E canta uma canção que alicia;
Há um assombro
Em sua poderosa melodia.
O navegante no pequeno navio,
Capturado por selvagem dor,
Não divisa o recife rochoso,
Só visa à face superior.
Creio, as ondas hão de arrastar
Ao fundo, navegante e barco
Eis o que, com seu cantar,
Loreley leva a ato.

06 dezembro 2016

Plano de leituras 2017


The House Maid, Paxton, William McGregor 1910


SAGRADA ESPERANÇA (Literatura angolana) JAN-MAR

28 Jan - “Luuanda”, de Luandino Vieira
25 Fev - “O Vendedor de Passados”, de José Eduardo Agualusa
25 Mar - “Quantas Madrugadas Tem a Noite”, de Ondjaki

EROS PASSEANDO PELA BRISA DA TARDE ABRIL-JUN

29 Abr - “Ronda das Mil Belas em Frol”, de Mário de Carvalho
27 Mai - “Novelas Eróticas”, de Manuel Teixeira-Gomes
24 Jun - “Elogio da Madrasta”, de Mário Vargas Llosa

CONTEMPORÂNEOS PORTUGUESES JUL-SET

29 Jul - “Cântico Final”, de Vergílio Ferreira
26 Ago - “O Meu Mundo Não é Deste Reino”, de João de Melo
30 Set - “Adoecer”, de Hélia Correia

ELEMENTAR, MEU CARO WATSON (policial) OUT-DEZ

28 Out - “Aventuras de Sherlock Holmes”, de Arthur Connan Doyle
25 Nov - “Um Crime Capital”, de Francisco José Viegas
30 Dez – “Maigret nas Termas”, de George Simenon

02 dezembro 2016

"Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres" de Clarice Lispector - 17 de Dezembro às 15h00


Não a abrir, mas um pouco mais adiante:

" ... — usaria brincos? hesitou, pois queria orelhas apenas delicadas e simples, alguma coisa modestamente nua, hesitou mais: riqueza ainda maior seria a de esconder com os cabelos as orelhas de corça e torná-las secretas, mas não resistiu: descobriu-as, esticando os cabelos para trás das orelhas incongruentes e pálidas: rainha egípcia? não, toda ornada como as mulheres bíblicas, e havia também algo em seus olhos pintados que dizia com melancolia: decifra-me, meu amor, ou serei obrigada a devorar, e
agora pronta, vestida, o mais bonita quanto poderia chegar a sê-lo, vinha novamente a dúvida de ir ou não ao encontro com Ulisses — pronta, de braços pendentes, pensativa, iria ou não ao encontro? ..."

in "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres" de Clarice Lispector

24 novembro 2016

LEITURAS DE 2017

Para que saibam, ó incautos leitores, o plano de leituras para 2017 está em gestação. Sugestões de um lado, palpites de outro, e a coisa vai avançando, ainda com lista provisória. Livros de 500 páginas não serão permitidos, os olhos agradecem. Teremos um trimestre dedicado à literatura angolana, outro à literatura erótica... Consta perspectivarem-se algumas ausências à sessão do próximo sábado: importantes colóquios, deveres profissionais e outras razões atendíveis. Quem faltar que depois não se queixe. Além de perder a discussão de um belo livro - Vidas Secas, de Graciliano Ramos - vai deixar, talvez, de poder indicar o livro que gostaria de ver discutido no próximo ano. Até sábado! 



17 novembro 2016

MORTE E VIDA SEVERINA


Ontem, lendo as primeiras narrativas de Vidas Secas, lembrei-me de Morte e Vida Severina (1955), de João Cabral de Melo Neto, texto muito lido e comentado nos meus círculos juvenis de finais de sessenta. O exemplar aí em cima foi comprado no Centro do Livro Brasileiro – R. Rodrigues Sampaio, 30-B, Telef. 46470, Lisboa –, conforme etiqueta colada na última página. “Auto de natal pernambucano”, assim se diz em subtítulo. Na verdade, a história de um retirante em direcção ao Recife, acossado pela miséria e a fome – uma “vida seca”.

Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.

08 novembro 2016

"Vidas Secas" de Graciliano Ramos - 26 de Novembro às 15h00


A abrir:

" NA PLANICIE avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala.
Arrastaram-se para la, devagar, Sinha Vitoria com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça, Fabiano sombrio, cambaio, o aio a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda de pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás. Os juazeiros aproximaram-se, recuaram, sumiram-se. O menino mais velho pôs-se a chorar, sentou-se no chão.
- Anda, condenado do diabo, gritou-lhe o pai.
Não obtendo resultado, fustigou-o com a bainha da faca de ponta. Mas o pequeno esperneou acuado, depois sossegou, deitou-se, fechou os olhos. Fabiano ainda lhe deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse. Como isto não acontecesse, espiou os quatro cantos, zangado, praguejando baixo.
A catinga estendia-se, de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas.
O voo negro dos urubus fazia círculos altos em redor de bichos moribundos.
- Anda, excomungado.
O pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou mata-lo. Tinha o coração grosso, queria responsabilizar alguém pela sua desgraça. A seca aparecia-lhe como um fato necessário - e a obstinação da criança irritava-o. Certamente esse obstáculo miúdo não era culpado, mas dificultava a marcha, e o vaqueiro precisava chegar, não sabia onde.
Tinham deixado os caminhos, cheios de espinho e seixos, fazia horas que pisavam a margem do rio, a lama seca e rachada que escaldava os pés.
Pelo espírito atribulado do sertanejo passou a ideia de abandonar o filho naquele descampado. Pensou nos urubus, nas ossadas, cocou a barba ruiva e suja, irresoluto, examinou os arredores. Sinha Vitoria estirou o beiço indicando vagamente uma direção e afirmou com alguns sons guturais que estavam perto. Fabiano meteu a faca na bainha, guardou-a no cinturão, acocorou-se, pegou no pulso do menino, que se encolhia, os joelhos encostados no estômago, frio como um defunto. Aí a cólera desapareceu e Fabiano teve pena. Impossível abandonar o anjinho aos bichos do mato. Entregou a espingarda a Sinha Vitoria, pôs o filho no cangote, levantou-se, agarrou os bracinhos que lhe caiam sobre o peito, moles, finos como cambitos. Sinha Vitoria aprovou esse arranjo, lançou de novo a interjeição gutural, designou os juazeiros invisíveis.
E a viagem prosseguiu, mais lenta, mais arrastada, num silencio grande..."

in "Vidas Secas" de Graciliano Ramos, Capítulo I 

03 outubro 2016

“Budapeste”, de Chico Buarque – 5 de Novembro às 15h00


A abrir

“Devia ser proibido debochar de quem se aventura em língua estrangeira. Certa manhã ao deixar o metrô, por engano numa estação azul igual à dela, com um nome semelhante à estação da casa dela, telefonei da rua e disse: aí estou chegando quase. Desconfiei na mesma hora que tinha falado besteira, porque a professora me pediu para repetir a sentença. Aí estou chegando quase … havia provavelmente algum problema com a palavra quase. Só que, em vez de apontar o erro, ela me fez repeti-lo, repeti-lo, depois caiu numa gargalhada que me levou a bater o fone. Ao me ver à sua porta teve novo acesso, e quanto mais prendia o riso na boca, mais se sacudia de rir com o corpo inteiro. Disse enfim ter entendido que eu chegaria pouco a pouco, primeiro o nariz, depois uma orelha, depois um joelho, e a piada nem tinha essa graça toda…”


In “Budapeste” de Chico Buarque

29 setembro 2016

BEETHOVEN NO TERREIRO DO PAÇO*

Euterpe, musa da música, por FRANÇOIS BOUCHER
 
Indicação da nossa colega Cristina Mora, estudo crítico das sinfonias de Beethoven:


* Concertos "Integral das Sinfonias de Beethoven", de 28 de Setembro a 1 de Outubro, Orquestra Metropolitana de Lisboa, maestro Pedro Amaral. 21:30 no Terreiro do Paço.

24 setembro 2016

A poesia, na sessão de hoje...


"Imensidão", Gustave Courbet, 1869


No Hay Muerte ni Principios

No hay muerte ni principios.
Sólo hay un mar donde estuvimos y estaremos,
un mar de peces que son como nosotros,
que vuelan cuando nacen,
que se hunden cuando mueren;
peces voladores
que saltan a la luz
sin llegar a ser ángeles.
Sólo hay un mar
y los alegres saltos de la vida.
Esta curva en el aire,
tan lenta a veces,
sobre ese mar tan codicioso,
no es un arco iris
después de la tormenta,
no es un puente
por donde pueda pasar nadie.

Nuestra vida dibuja
su ascensión y descenso
sobre ese mar humano,
donde la humanidad
realmente vive.
No hay muerte ni principios.
Sólo hay un árbol grande
que sacude sus hojas
para nutrirse de ellas
cuando caigan al suelo.

De Manuel Altolaguirre

Hoje pela mão da Cristina Mora, chegou-nos este poema lindíssimo do Manuel Altolaguirre...

20 setembro 2016

O "Whist"

"PLaying the whist", Boris Kustodiev, 1905

“ …Schwarz não descera. Esperava-o no patamar. Piotr Ivanovitch percebeu logo o que o retinha: queria combinar o local onde pudessem, mais tarde, jogar uma partida de whist…

…. Compreendeu que Schwartz pairava acima daquelas coisas, e não se entregava a impressões acabrunhantes. O simples aspecto dele dizia que o incidente do funeral de Ivan Ilitch não teria força bastante para alterar o a ordem dos acontecimentos, isto é, nada o impediria de pegar no baralho, à noite, e embaralhar as cartas, enquanto um criado colocava velas novas na mesa; em suma,  não havia motivos para supor que as exéquias iriam impedi-los de passar o serão agradavelmente, como sempre o faziam. E foi, aliás, o que ele sussurrou a Piotr Ivanovitch, convidando-o a participar numa partidinha em casa de Fiódor Vassílievitch.

Mas, segundo parece, o destino não traçara para  Piotr Ivanovitch, naquela noite, um jogo de cartas …”

... Na nova cidade, a vida de Ivan Ilitch também se organizou muito agradavelmente: a sociedade que se opunha discretamente ao governador era amável e coesa, o ordenado era mais alto, e iniciou-se no whist, mais uma fonte de prazer, pois era um jogador nato, sabendo enfrentar os riscos com bom humor, raciocinando com prontidão e esperteza as suas jogadas e, por tal, sempre bem feliz nos ganhos..."

in "A Morte de Ivan Ilitch" de Leon Tolstoi

01 setembro 2016

"A Morte de Ivan Ilitch" de Leon Tolstoi - 24 de Setembro às 15h00

A abrir

"No prédio do Tribunal, durante um intervalo do julgamento do caso Melvinsky, os membros da Corte e o promotor reuniram-se no gabinete de Ivan Yegorovich Shebek e a conversa recaiu sobre o famoso caso Krasovsky. Fiodr Vassily Evich insistia em que o caso não estava sob sua jurisdição, Ivan Yegorovich argumentava o contrário, enquanto Piotr Ivanovich, como não estava na discussão desde o início, não tomava o partido de ninguém, mas passava os olhos pelo Gazette, que tinham acabado de entregar.

– Senhores – exclamou. – Morreu Ivan Ilitch.
– Não é possível!
– Está aqui. Pode ler – disse Piotr Ivanovich, passando o jornal que ainda cheirava a tinta a Fiodr Vassilyevich.

Cercadas por uma borda preta, liam-se as seguintes palavras:

É com profundo pesar que Praskovya Fiodorovna participa a amigos e parentes a passagem de seu estimado esposo, Ivan Ilitch Golovin, membro da Corte Suprema, que deixou esta vida no dia 04 de Fevereiro do ano da graça de 1882. O enterro acontecerá na sexta-feira, à uma hora da tarde..."

in "A Morte de Ivan Ilitch" de Leon Tolstoi

31 agosto 2016

E a finalizar, o formato televisivo da "Margarita e o Mestre"



Ainda na sequência da última sessão e antes de avançarmos para o Leon, cá fica a Parte 1 da série russa. Legendas em inglês ou espanhol... 

30 agosto 2016

Ainda em tempo de "Margarita e o Mestre"

Ainda no rescaldo do romance de Agosto, algumas ilustrações interessantes que encontrei na net (não consigo colocar os links para os créditos das mesmas...)

09 agosto 2016

"Margarita e o Mestre", de Mikhail Bulgakov - 27 de Agosto às 15h00


Capítulo I

Nunca falem com desconhecidos

"Ao pôr do Sol de um dia de Primavera invulgarmente quente, apareceram, no lago do Patriarca, em Moscovo, dois cidadãos. Um deles vestindo um fato cinzento de Verão, era baixo, gordo, calvo. Trazia na mão o seu respeitável chapéu de abas largas e na cara bem barbeada usava uns óculos anormalmente grandes com aros pretos de tartaruga. O outro, um jovem de ombros largos, cabelos arruivados e revoltos, com um boné de xadrez puxado para a nuca, vestia uma camisa de cow-boy, calças brancas amarrotadas e sapatilhas pretas..."

in "Margarita e o Mestre", de Mikhail Bulgakov